Pra quem não sabe, "Quem Somos Nós?", título traduzido para o português do fatídico "What the bleep do we know?", é um filme que aborda temas de espiritualidade e divagações da consciência, e tristemente relacionando-os (ou tentando) à Mecânica Quântica.
Não sei até que ponto as pessoas que vêm até mim foram influenciadas por esse filme, dizendo que ele despertou nelas a curiosidade à respeito da Física Quântica, mas garanto-lhes: Quando você tem curiosidade à respeito de leões depois de assistir O Rei Leão (que aliás é muito bom), você deve ter noção de que aquilo que quer saber é muito diferente do filme que você assistiu. Isso acontece com "Quem Somos Nós?".
A Mecânica Quântica envolve não só conceitos complexos de probabilidade e de medição de grandezas físicas, como também exige conceitos matemáticos tão profundos que é impossível falar sobre ela omitindo este último, o que a torna vaga, sem sentido, e principalmente aberta à milhões de interpretações equivocadas. Por esse motivo, à menos que você tenha feito pelo menos uma disciplina introdutória à Física Quântica, seja em um curso de Graduação em Física ou Química, ou um safári na África, saiba que a visão demonstrada pelo filme "Quem Somos Nós?" é deturpada e errada, tentando unir Ciência e espiritualidade simplesmente jogando fora a primeira. Mas não sou só eu quem está dizendo:
"Este filme é ainda mais pretensioso do que enfadonho. E ele é estonteantemente enfadonho - a menos que, é claro, você tenha sido enganado por essa farsa New Age, e nesse caso pode até ser - como muitos inocentes crédulos disseram - "life-changing". Richard Dawkins, professor de Zoologia, Etologia e Evolucionismo em Oxford.
"Ouça meu conselho e não assista a esse filme. Eu repito, não assista a esse filme. Repito novamente, não assista a esse filme. Se você assistir, deixará o cinema desinformado, 8 libras mais pobre e tendo perdido duas horas da sua vida." Simon Singh, PhD em Fìsica de Partículas em Cambridge, em sua Revisão do filme para a Rádio 4 BBC.
O recado tá dado. Até mais, e obrigado pelos peixes.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Algo que todo Lobisomem deve saber
Você já deve ter notado (ou se não, note) que a Lua sempre mostra a mesma face para a Terra, e apenas a sua região de sombra se modifica, com o passar dos dias. Isso não é por acaso: há uma razão por trás disso, e que vou demonstrar agora.
Primeiro, precisamos ter uma noção de como trabalha a Força Gravitacional. Isso mesmo, a força da gravidade é aquilo que nos mantêm seguros no chão, e que mantém a Lua girando em torno da Terra; é uma força de atração entre os corpos. Essa força depende de dois fatores: a massa dos corpos que se atraem (quanto maior sua massa, maior a força), e a distância que os separa (quando maior a distância, menor a força).
Para o nosso caso, como a massa da Terra e da Lua são aproximadamente constantes, será relevante entender que a força gravitacional é mais fraca quando a distância entre os corpos é maior. À partir disso, não deve ser difícil perceber que a força gravitacional que atua na face da Lua mais próxima à Terra é maior que a força gravitacional que atua na face oposta, que está mais distante. No diagrama 1 abaixo, está demonstrado essa situação (quanto maior a seta, maior a força).
Mas você deve notar que, se você pega um objeto qualquer e faz, em uma ponta dele, uma força maior que na outra, ainda que na mesma direção, essa diferença nas forças tende a fazer o corpo se esticar, ou seja, como se nele estivessem agindo duas forças com direções opostas, como mostrado no diagrama 2. Isso é o que chamamos de efeito de maré, e ocorre não só com a Lua, mas também com a Terra.
A grande diferença está no fato de que a Terra possui uma grande massa de água, e a água pode ser deformada mais facilmente: quando a massa de água da Terra "se estica", dá origem às marés. Mas com a Lua isso não ocorre, pois ela é feita de rocha. Dessa maneira, se a Lua possuísse um movimento de rotação em relação à Terra, ela teria que ser deformada constantemente, o que no seu caso é muito mais difícil. Por essa razão, é energeticamente mais eficiente para a Lua mostrar sempre a mesma face para a Terra, uma vez que ela não precisa se "redeformada" dessa maneira.
Agora vocês sabem que, além de mostrar sempre a mesma face para a Terra, a Lua é levemente ovalada na nossa direção. Hm... vou fazer um omelete. Até a próxima!
Primeiro, precisamos ter uma noção de como trabalha a Força Gravitacional. Isso mesmo, a força da gravidade é aquilo que nos mantêm seguros no chão, e que mantém a Lua girando em torno da Terra; é uma força de atração entre os corpos. Essa força depende de dois fatores: a massa dos corpos que se atraem (quanto maior sua massa, maior a força), e a distância que os separa (quando maior a distância, menor a força).
Para o nosso caso, como a massa da Terra e da Lua são aproximadamente constantes, será relevante entender que a força gravitacional é mais fraca quando a distância entre os corpos é maior. À partir disso, não deve ser difícil perceber que a força gravitacional que atua na face da Lua mais próxima à Terra é maior que a força gravitacional que atua na face oposta, que está mais distante. No diagrama 1 abaixo, está demonstrado essa situação (quanto maior a seta, maior a força).
Mas você deve notar que, se você pega um objeto qualquer e faz, em uma ponta dele, uma força maior que na outra, ainda que na mesma direção, essa diferença nas forças tende a fazer o corpo se esticar, ou seja, como se nele estivessem agindo duas forças com direções opostas, como mostrado no diagrama 2. Isso é o que chamamos de efeito de maré, e ocorre não só com a Lua, mas também com a Terra.
A grande diferença está no fato de que a Terra possui uma grande massa de água, e a água pode ser deformada mais facilmente: quando a massa de água da Terra "se estica", dá origem às marés. Mas com a Lua isso não ocorre, pois ela é feita de rocha. Dessa maneira, se a Lua possuísse um movimento de rotação em relação à Terra, ela teria que ser deformada constantemente, o que no seu caso é muito mais difícil. Por essa razão, é energeticamente mais eficiente para a Lua mostrar sempre a mesma face para a Terra, uma vez que ela não precisa se "redeformada" dessa maneira.
Agora vocês sabem que, além de mostrar sempre a mesma face para a Terra, a Lua é levemente ovalada na nossa direção. Hm... vou fazer um omelete. Até a próxima!
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Quando se leva um tiro
Esses dias eu vi uma review interessante sobre um dos filmes que mais desafia as leis da Física: "Triplo-X", e pensei em mostrar algo no qual os filmes, principalmente os mais antigos, sempre têm feito de forma errada: o que acontece quando uma pessoa leva um tiro?
Você pode observar que, na grande maioria das cenas, a pessoa é atirada para trás com violência, algo que nem sempre corresponde ao que aconteceria em uma situação real, e que é apenas utilizado como efeito cinematográfico. Vou demonstrar porque.
A primeira coisa que quero deixar claro é o conceito de simetria de translação. É algo bem simples, na verdade: significa que, se você observa um fenômeno físico, simétrico por translação, a 10 metros, é a mesma coisa de se olhar o mesmo fenômeno a 20 metros. Se você vê alguém levando um tiro a uma curta distância, ou a uma longa distância, o efeito será o mesmo. Tendo vencido esse obstáculo, passamos para o próximo.
A simetria de translação leva diretamente à uma lei de conservação do momento linear total, que alguns conhecem por quantidade de movimento. Basicamente, a quantidade de movimento de um corpo é a sua massa multiplicada por sua velocidade. A lei de conservação diz que se somarmos a quantidade de movimento dos dois corpos (pessoa + bala), essa quantidade se conserva, mesmo depois que a bala atinge a pessoa. Agora, vamos observar o fenômeno em si:
Em um momento inicial, temos uma pessoa parada, e uma bala vindo em alta velocidade em sua direção. Aqui, vou considerar uma 9mm na norma americana, cuja massa é m = 8g e a velocidade média é v = 367m/s, e uma pessoa adulta de m = 70 kg = 70000 g. Vamos calcular, então, a quantidade de movimento inicial:
Sabemos, pela lei de conservação que descrevi acima, que mesmo depois que a bala atinge a pessoa, essa quantidade de movimento deve ser a mesma. Após a colisão da bala, o nosso sistema passa a ser um corpo, de massa igual à soma das massas da pessoa e da bala ( m = 70008 g), se movendo com uma velocidade v, que vamos determinar agora:
Após o tiro, a pessoa é arremessada para trás com uma velocidade de v = 0,042 m/s, ou v = 0,151 km/h. Bem menor do que aquela mostrada nos filmes.
Uma exceção à essa regra, que aliás nunca foi exibida por motivos óbvios, aconteceu nas gravações do filme O Corvo, onde em uma cena, Brandon Lee foi atingido por uma bala de verdade (0.0). Os negativos da gravação de sua morte nunca foram revelados.
Enfim, quando você vir um filme, de agora em diante, e alguém for atingido por uma 9mm, você pode conferir se ela voa pra trás feito um beija-flor, ou sai mais ou menos com a velocidade que encontramos acima. Ou como diria o Austin Powers: "Não pense muito nisso e divirta-se.". Até mais.
Você pode observar que, na grande maioria das cenas, a pessoa é atirada para trás com violência, algo que nem sempre corresponde ao que aconteceria em uma situação real, e que é apenas utilizado como efeito cinematográfico. Vou demonstrar porque.
A primeira coisa que quero deixar claro é o conceito de simetria de translação. É algo bem simples, na verdade: significa que, se você observa um fenômeno físico, simétrico por translação, a 10 metros, é a mesma coisa de se olhar o mesmo fenômeno a 20 metros. Se você vê alguém levando um tiro a uma curta distância, ou a uma longa distância, o efeito será o mesmo. Tendo vencido esse obstáculo, passamos para o próximo.
A simetria de translação leva diretamente à uma lei de conservação do momento linear total, que alguns conhecem por quantidade de movimento. Basicamente, a quantidade de movimento de um corpo é a sua massa multiplicada por sua velocidade. A lei de conservação diz que se somarmos a quantidade de movimento dos dois corpos (pessoa + bala), essa quantidade se conserva, mesmo depois que a bala atinge a pessoa. Agora, vamos observar o fenômeno em si:
Em um momento inicial, temos uma pessoa parada, e uma bala vindo em alta velocidade em sua direção. Aqui, vou considerar uma 9mm na norma americana, cuja massa é m = 8g e a velocidade média é v = 367m/s, e uma pessoa adulta de m = 70 kg = 70000 g. Vamos calcular, então, a quantidade de movimento inicial:
Sabemos, pela lei de conservação que descrevi acima, que mesmo depois que a bala atinge a pessoa, essa quantidade de movimento deve ser a mesma. Após a colisão da bala, o nosso sistema passa a ser um corpo, de massa igual à soma das massas da pessoa e da bala ( m = 70008 g), se movendo com uma velocidade v, que vamos determinar agora:
Após o tiro, a pessoa é arremessada para trás com uma velocidade de v = 0,042 m/s, ou v = 0,151 km/h. Bem menor do que aquela mostrada nos filmes.
Uma exceção à essa regra, que aliás nunca foi exibida por motivos óbvios, aconteceu nas gravações do filme O Corvo, onde em uma cena, Brandon Lee foi atingido por uma bala de verdade (0.0). Os negativos da gravação de sua morte nunca foram revelados.
Enfim, quando você vir um filme, de agora em diante, e alguém for atingido por uma 9mm, você pode conferir se ela voa pra trás feito um beija-flor, ou sai mais ou menos com a velocidade que encontramos acima. Ou como diria o Austin Powers: "Não pense muito nisso e divirta-se.". Até mais.
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